Síndrome
do Pânico e Hipnose
Por
Odair José Comin
O
medo permeia nossa existência desde o nascimento até
a morte, e um dos principais e mais real, é o próprio
medo da morte. Ao mesmo tempo em que o medo nos protege
dos perigos, ele nos paralisa frente a oportunidades,
frente ao que poderia tornar-se um prazer. Por vezes,
o medo nos impossibilita de saborear a vida como gostaríamos,
de alcançar sonhos ou concretizar objetivos. Como disse,
o medo permeia nossa existência, não porque vivemos
em savanas pré-históricas, em meio a animais selvagens
e carnívoros, aborígines canibais ou assolados pelas
inúmeras pragas e doenças da Antigüidade. Tal realidade
era exposta, e as pessoas conviviam com ela, aceitavam-na
de forma natural. O medo nos permeia atualmente, porque
vivemos no mundo moderno, numa talvez falsa civilização,
que não leva em consideração o Ser Humano e tenta ocultar
as realidades que envolvem a dor, distanciando-nos da
morte, por exemplo. A distância, tanto do assunto como
da própria vivência, acaba por tornar a morte algo bastante
temido.
Somando-se
a isso, vivemos em uma sociedade que oprime e ameaça
o indivíduo, modelos administrativos e modelos religiosos
rígidos, castradores e que nos incute a culpa em escolhas
e comportamentos que dizem respeito à liberdade do ser
humano. O mundo moderno acaba por justificar o medo,
o stress, a ansiedade e a síndrome do pânico. O pânico
está sutilmente estampado nas páginas de jornais: “índice
de desemprego sobe a cada dia”, “a violência cresce
nas grandes cidades”, ou de forma escancarada e direta
nos diferentes noticiários: “a guerra do terror faz
mais vítimas”, “novas bombas explodem”, “o terror ameaça
o mundo”. Ou seja, o pânico é semeado pelas mídias e
disseminado pelas massas o tempo todo. O pânico está
cada vez mais próximo, e sem a intenção de fazer parte
da força que movimenta esta grande roda do pavor, o
número de pessoas com esse mal tem se tornado mais e
mais freqüente em consultórios de Psicologia e Psiquiatria.
Além
dos sintomas característicos, a síndrome do pânico pode
ser conseqüência de uma apreensão, medo, terror ou pavor,
esses, ligados a perigos externos que nos paralisam
ou nos preparam para a fuga ou enfrentamento. Além destes,
há também a ansiedade generalizada e aguda, fobia e
angústia, nestes, não necessariamente há um perigo externo
e real, antes sim, são conflitos internos que por vezes
não sabemos ou não entendemos suas origens.
A
ansiedade é a sensação de que algo desagradável está
para acontecer e o medo de um futuro incerto, trazendo
um sofrimento antecipado, motivado por algo que ainda
não aconteceu e que nem se quer sabemos o resultado.
Entretanto, o sofrimento é atual e se inicia quando
o indivíduo entra em contato com a informação, que pode
ser a marcação de uma cirurgia, um encontro importante,
uma entrevista de emprego ou aguardar uma resposta.
A ansiedade também pode ser motivada por algo
agradável, o encontro com a namorada, uma entrevista
de emprego, enfim, a ansiedade faz parte de nosso cotidiano
e até certo grau é normal, torna-se preocupante na medida
em que começa a trazer sofrimento por longos períodos.
A
angústia é o medo sem um objeto real, é um vazio, um
“aperto” que não conseguimos identificar suas raízes.
A angústia expressada por Sêneca, ou seja, aparece quando
o ser humano pensa sobre a brevidade da vida, sobre
a morte chegar antes de se ter vivido o suficiente,
ou suficientemente uma vida bem vivida, que por vezes
encontramos em pacientes com síndrome do pânico, ao
relatarem a sensação de não estar vivendo de forma plena,
não aproveitar a vida como deveriam, demonstrando estarem
cansados da vida que levam ou mesmo perdendo os preciosos
dias de sua existência.
A
fobia é um medo exagerado e desproporcional à situações
vividas no meio externo, e que a rigor não deveria trazer
tais pensamentos e/ou comportamentos de medo, haja visto,
serem situações onde a maioria das pessoas, ou os ditos
“normais”, não teriam esse tipo de reação.
As
raízes da Síndrome do Pânico
Uma
síndrome é caracterizada por um conjunto de sinais e
sintomas. A etimologia da palavra pânico vem da Grécia,
Pã era um deus grego, sua aparição gerava instantaneamente
grande medo nos que o viam. Portanto, pânico é um medo
violento e repentino, gerador de grande ansiedade. O
DSM-4, enumera os sinais e sintomas que comumente são
percebidos em pacientes com Síndrome do Pânico, os quais
devem se apresentar simultaneamente em número de pelo
menos quatro: palpitação; sudorese; tremores ou abalos;
sensação de falta de ar ou sufocamento; sensação de
asfixia; dor ou desconforto torácico; náuseas ou desconforto
abdominal; tontura ou vertigem; desrealização (sensações
de irrealidade); despersonalização (estar distanciado
de si mesmo); medo de perder o controle ou “enlouquecer”;
medo de morrer; parestesias ou formigamento; e calafrios
ou ondas de calor.
As
raízes da Hipnose
A
palavra Hipnose vem do grego hypnos, termo designado
ao deus do sono, porém este foi um conceito utilizado
no passado, quando se pensava que a hipnose assimilava-se
ao sono, hoje sabemos que este conceito não é verdadeiro,
e a hipnose não tem nenhuma relação com o sono ou dormir,
hoje temos que a hipnose é um conjunto de fenômenos
naturais e específicos da mente, que produzem diferentes
impactos, tanto físicos como psíquicos. Esses fenômenos
poderão ser induzidos ou auto-induzidos através de estímulos
provenientes dos cinco sentidos, sejam eles conscientes
ou não.
Individualizando
o paciente
A
hipnose tem se mostrado bastante eficiente no tratamento
de pacientes com síndrome do pânico, com isso, cada
vez mais as pessoas tem buscado na hipnoterapia a diminuição
ou mesmo a cura de tal mal. Todo tratamento começa com
a anamnése, ou seja, a colheita de informações a respeito
daquele indivíduo em especial que é um ser único e,
portanto, com uma realidade única. Quanto mais conheço
meu paciente maior serão as chances de ajuda-lo. Cada
indivíduo desenvolverá a síndrome do pânico por motivos
diferentes, e essas razões precisam ser identificadas,
sejam elas explicitas ou implícitas. É de suma importância
conhecer a história do paciente, para assim poder vê-lo
de forma mais transparente, conhecer as causas e os
mantenedores da síndrome no presente e as possíveis
projeções futuras que da mesma forma, além de manter
a doença criam a possibilidade de se perpetuar por ainda
mais tempo. Acredito ser importante compartilhar com
meu paciente as percepções sobre sua própria realidade
individual, que por vezes passa desapercebida, mesmo
porque com a democratização da informação, muitas vezes
o paciente chega ao consultório com um diagnóstico já
estabelecido ou mesmo padronizado, este conseguido por
meio de livros ou internet, e além do diagnóstico acabam
por trazer as razões que acreditam ser as causadoras
da síndrome, às vezes essas percepções estão corretas,
mas é necessário ir mais longe. Essas diferentes realidades
e visões podem ser percebidas ou não pelo paciente,
o trabalho terapêutico é desvendar a mente do paciente,
além do que simplesmente é conhecido, falado ou expressado,
buscando o insight, a mudança, a transformação.
O
paciente e o pânico
Para
ilustrar, exponho agora um caso clínico de paciente
com nome fictício, que busca a hipnoterapia como forma
de tratamento, envolvendo anamnése, diagnóstico, aprendizagens
necessárias, estratégia e intervenção:
Anamnése:
A anamnése é a história de vida e a história do problema
do paciente. Pedro de 32 anos sai de casa e dirige-se
para o trabalho, guia o carro enquanto no rádio ouve
um jogo de futebol. Antes de sair de casa havia discutido
com a esposa como freqüentemente acontecia. Aparentemente
Pedro estava bem, porém nervoso com o jogo, pois seu
time estava perdendo, quando de repente sai um gol.
Pedro explode numa descarga de alegria, esta depois
de alguns segundos provocou certo mal estar. O corpo
começou a formigar, seu coração começou a bater mais
forte, e sentiu seu peito apertado, começou a soar frio
e sentir falta de ar, pensou que estava tendo um enfarto
e teve medo de morrer, ficou totalmente desesperado.
Pedro desceu do carro e pediu ajuda. Depois de repousar
por cerca de 30 minutos; sentiu-se melhor e dirigiu-se
para o trabalho. A partir deste dia, os sintomas de
pânico e as sensações de mal estar tem sido freqüentes
em diferentes momentos, chega a ter receio até mesmo
de comemorar qualquer evento com medo de que as sensações
voltem. Este é um exemplo de como um ataque de pânico
pode acontecer, mostrando um conjunto de sinais e sintomas
que caracterizou-se em síndrome do pânico. Acontece
normalmente desta forma, sem um grande motivo aparente,
“do nada” como relatam os pacientes, em situações banais
e corriqueiras do cotidiano, o que acaba por restringir
o convívio social e profissional do indivíduo com este
mal.
Pedro
está casado há 12 anos, tem um filho de 10 anos de idade.
Relata que seu casamento vai mal desde o quarto ano
de casado, ou seja, há 8 anos não vive uma relação conjugal
saudável. Diz ter perdido o apetite sexual, sente-se
ansioso, estressado, deprimido e carente afetivamente.
Relata não ver mais sentido na vida que leva. O pai
sempre foi bastante distante, e via no avô que morreu
há 18 meses o pai que não teve, sendo este quem o ensinou
a crescer e ser homem. Diz ter sofrido muito com a morte
do avô e sente muita falta. Pedro relata que se mantém
na relação com a esposa por pena e pelo filho, acha
que as conseqüências seriam drásticas para eles caso
houvesse uma separação e tivesse que crescer sem um
pai por perto e a esposa, por ter problemas de saúde.
Há algum tempo o casal comentou com o filho a hipótese
da separação, ao que este respondeu negativamente mantendo
por certo período um comportamento agressivo, por isso
não retomou o assunto. Todavia, não consegue passar
muito tempo com o filho, praticamente vendo-o no final
de semana, pois trabalha e faz uma nova faculdade à
noite, e diz que os momentos que consegue ficar com
ele, são improdutivos e sente que não está dando seu
melhor, pois está sempre cansado e desanimado. Em relação
a esposa, diz não sentir atração alguma a repelindo
quando esta tenta uma aproximação, não vê sentido na
relação, dizendo que a separação é certa e que aguarda
apenas um melhor entendimento do filho (enquanto isso
acaba por anular a si mesmo) e continua mantendo uma
relação desprazerosa. Para Pedro a esposa já “morreu”,
a relação morreu, seu sonho de família morreu, por este
fato fica muito decepcionado, pois se diz “muito família”
tendo apostado sua vida nesta relação que viu desmoronar.
Diagnóstico:
O diagnóstico nada mais é que a identificação das possíveis
causas que levaram o paciente a desenvolver a síndrome,
e isso é feito a partir de uma observação da realidade
individual e única do paciente, isto é, a história de
vida do paciente colhida por ocasião da anamnése falada
ou emitida por meio de comportamentos durante a sessão.
Além dos sintomas já descritos, é muito comum em pacientes
com síndrome do pânico, de alguma forma a morte estar
envolvida, seja ela real ou simbólica. No caso citado
aconteceram ambas, tanto a real que foi a morte do avô,
como a simbólica que foi a relação conjugal, envolvendo
o sonho de ter uma família. Além desses eventos estressores
específicos e pontuais, existem todas as circunstâncias
de sua vida. As brigas, uma relação afetiva apenas de
aparências, tendo que manter-se numa posição que não
gostaria de estar, tendo que abnegar de sua vida pelo
filho, e a própria faculdade que diz fazer para fugir
do convívio com a esposa. Esses são aspectos importantes
que deverão ser observados para que a terapia aconteça.
Aprendizagens
Necessárias: O paciente chega com uma história de
vida, com formas de pensar já estabelecidas e com aprendizagens
adquiridas no decorrer da sua vida. Muitas vezes acaba
por criar enumeras armadilhas para si mesmo, que envolvem
medos e culpas, com isso não consegue se desvencilhar.
Os pensamentos e aprendizagens acabam por envolver sentimentos
de dor e tristeza. A síndrome do pânico vem como um
pedido de socorro da mente e do corpo, para que providências
sejam tomadas em relação à vida que o indivíduo esta
levando. Faz-se necessário novas formas de pensar, novas
aprendizagens que trarão novas experiências de vida,
que possibilitem formas de pensar mais lúcidas frente
a tudo o que permeia a sua vida e que está lhe provocando
sofrimento. O hipnoterapeuta deve ter claro quais sãos
os pensamentos e aprendizagens necessárias à mudança
do paciente, ou seja, a superação do problema.
No
caso do paciente em questão, talvez fosse necessário
este pensar sobre a vida que está dando a si mesmo,
ao filho e a esposa. O paciente não toma decisões para
não trazer sofrimento ao filho, com isso se martiriza
e neste caso mais cedo ou mais tarde o sofrimento é
inevitável, em qualquer separação que envolva amor,
a dor é inevitável. E que conseqüências sua relação
sem amor com a esposa poderá trazer ao filho ou mesmo
está trazendo? Pensar sobre sua postura frente à relação,
onde não consegue ser pai, ser marido ou mesmo homem,
como senhor de si mesmo. Essas circunstâncias geram
stress, ansiedade, medo, angústia, enfim, sentimentos
que levam a uma pressão interna, onde o corpo e a mente
não suportam, com isso, os sinais e sintomas da síndrome
do pânico vem de forma arrebatadora. Há que refletir,
há que buscar saídas, escolhas mais saudáveis, decisões
que podem ser a priori dolorosas, porém que a fortiori
possam trazer a sensação de liberdade e vida saudável
para o paciente.
Estratégias:
A estratégia é o plano a ser elaborado com início, meio
e fim, tendo como objetivo, alcançar uma meta; no caso,
a solução do problema ou cura da doença. Depois de identificar
quais pensamentos e aprendizagens serão necessários
ao paciente, o hipnoterapeuta deverá montar uma estratégia
a partir da realidade individual do paciente para que
o conteúdo seja passado e assimilado pelo mesmo, e assim
chegar a novas conclusões para sua vida.
Intervenção:
Depois de traçar a estratégia, o hipnoterapeuta realiza
a intervenção, que pode ser feita de diferentes formas.
As estratégias poderão envolver comentários, pontuações,
frases, exemplos, histórias ou metáforas entre outros,
estes podem ser feitos com o paciente em relaxamento,
transe e hipnose ou fora deles. Mesmo certas perguntas
poderão provocar no paciente novas articulações, conseqüentemente
novas percepções e possibilidades. Portanto, as perguntas
também são estratégicas e podem servir tanto para diagnosticar
como para intervir. A comunicação do conteúdo da estratégia
pode ser feita de forma direta procurando mostrar ao
paciente o que ele ainda não consegue perceber sobre
a vida que leva, as circunstâncias, as possíveis causas,
os mantenedores e a forma de pensar que o leva para
o sofrimento. De forma indireta sem que o paciente perceba,
neste caso utiliza-se para pacientes que desenvolvem
mecanismos de defesa ou possui resistência à mudança,
e que sem esta a psicoterapia não acontece. Pode ser
feita através de uma história que elicie no paciente
os pensamentos, sentimentos e ações necessárias à mudança.
Também de forma implícita que pode ser percebida ou
não, esta poderá ser um gesto, a entonação de voz em
palavras específicas ou assuntos específicos. A intervenção
poderá envolver o transe, relaxamento e fenômenos hipnóticos,
que podem ser a hipermnésia, regressão de idade, sugestão
pós-hipnótica, pseudo-orientação no futuro, progressão
de idade, entre outros.
Possível
Intervenção: O paciente comenta não haver mais perspectivas
futuras, não consegue imaginar como será sua vida. Diz
ter passado por muitas frustrações e que sente um sabor
de morte. Ao mesmo tempo, diz que quando criança tinha
muito prazer em jogar futebol, e na juventude gostava
de pescar e praticar esportes radicais. Milton Erickson
(pai da hipnose moderna) comentava que fica muito mais
fácil provocar mudanças em nosso paciente quando conseguimos
eliciar o que ele tem de bom. Não importa o pântano
que o paciente trouxer que tenha sido a sua vida, o
que nos importa é encontrar uma flor, uma árvore que
frutificou ou frutifica, e que talvez não esteja sendo
percebida pelo paciente. Cabe a nós psicoterapêutas
identificarmos e fazermos com que nosso paciente também
perceba. Partindo deste principio, poderia se fazer
uma regressão de idade, que é pensar no passado enquanto
presente, ou hipermnésia que é pensar no passado enquanto
passado. O objetivo é levar o paciente a vivenciar ou
lembrar-se desses fatos que lhe trouxeram prazer para
que possa novamente sentir um sabor de vida, de bem
estar, isso poderá provocar no paciente novas articulações
mentais e conseqüentemente novas aprendizagens em relação
a sua vida, acabando por muni-lo de ferramentas e conteúdos,
fortalecendo-o e percebendo do quanto é capaz e que
pode lidar de forma diferente com seu presente. Muitos
conteúdos são propostos pelo hipnoterapeuta, assim como
conclusões que o paciente pode chegar por ele mesmo,
o que é bastante eficaz e saudável. Quando o mérito
fica com o paciente, este valoriza mais essas novas
articulações do pensamento permitindo-se mudar com mais
facilidade e trazendo a solução. Depois dessa experiência,
com o paciente ainda em transe, traz-se o mesmo de volta
para o presente, fazendo-o perceber o agora, já com
essas novas informações, isso poderá possibilitar uma
rearticulação da realidade. Pode-se ainda continuar
a indução e levar o paciente para o futuro por meio
do fenômeno hipnótico da progressão de idade, que é
pensar no futuro enquanto presente, ou pseudo-orientação
no futuro, que é pensar no futuro enquanto futuro. O
alcance destes fenômenos ou dos anteriores, um ou outro,
dependem da intensidade de focalização do pensamento
que o paciente conseguir, nas situações de passado ou
futuro. Estando no “futuro”, mostrar as diferentes possibilidades
que o paciente tem para desfrutar a vida, assim como
permitir que por ele mesmo, possa vislumbrar e criar
o futuro que deseja, como vai querer que seja sua vida
quando se passarem 6 meses, 1 ou 2 anos, e o que terá
que fazer para chegar a tal ponto. Desta forma, abre-se
um espaço na mente para algo bom, positivo, algo que
incite vida, sentido, prazer. Novamente traz-se o paciente
ainda em transe de volta para o presente, permitindo
que possa vê-lo com ainda mais recursos a realidade,
e por ele mesmo buscar a mudança, a transformação.
Luto
x Pânico
Sofremos
porque nos apegamos, sofremos porque não conseguimos
renunciar aquilo que não mais nos pertence, mesmo que
não mais queiramos, algo nos prende e relutamos em abandonar,
e é por isso que sofremos ainda mais no luto e por deveras
torna-se mais trabalhoso sua elaboração. Tanto que evitamos,
tanto que preferimos sacrificar nosso presente em prol
de um futuro incerto: pode ser pior, mas também pode
ser melhor, quem saberá. Tanto que por vezes preferimos
a dor continuada ao prazer mesmo que efêmero e com possibilidade
de tornar-se constante. Constantemente estamos em luto,
pois não é apenas na morte de um ente querido que ficamos
de luto, mas também uma separação conjugal, a perda
de um namorado ou namorada, a perda de um animal de
estimação, de um emprego, há luto quando somos rejeitados,
menosprezados, quando nos frustramos de forma geral,
quando fracassamos, enfim, o luto faz parte constante
de nosso viver, não que o prazer esteja sempre ausente.
A elaboração, seria a busca de alternativas para viver
sem esse algo ou viver de outra forma, e a não elaboração
acaba por trazer o gosto continuado dessa “morte”, trazendo
à vida o gosto de morte. E talvez o pânico venha exatamente
por essa ausência de sabor de vida, ausência de sentido,
de prazer. Se o sabor de vida nos falta, por certo,
há presença de pânico, da morte eminente e os sintomas
que nos fazem pensar que realmente a morte nos ronda.
A morte nos desnuda da fantasia e nos põe frente ao
real, ou seja, que somos mortais, a elaboração do luto
é a aceitação desse real, o entendimento de que apesar
de tudo nós, continuamos vivos, e podemos voltar a saborear
a vida em suas múltiplas possibilidades: usufruir, triunfar,
amar.
Referências
Bibliográficas
BAUER,
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Livro Pleno, 2000.
FERREIRA, M. V. C. Hipnose na prática clínica. São Paulo,
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GALVÃO, B. V. Reflexões sobre a formação do ser humano,
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ZEIG, J. K. Seminários didáticos com Milton H. Erickson.
Campinas, Editorial Psy, 1995.
Artigo
publicado na Revista Psicologia Brasil
Nº 11 - Julho de 2004.
*Odair
José Comin, Psicólogo, Hipnoterapeuta e Escritor
Copyright ©
Delphos Instituto de Psicologia e Hipnose