A
Mágoa e Suas Implicações
Por
Odair José Comin
A
complexidade que permeia as interações e relações humanas,
abre brecha nas quais nascem diferentes desentendimentos.
Isso, devido as precárias analises que são feitas dos
discursos explícitos da comunicação direta. Quando ouvimos
um relato, o que nos é repassado, dificilmente passa
dos atos e conseqüências, as causas são desconhecidas,
mesmo e principalmente por aquele que as verbaliza.
Para quem ouve, não se pode fazer interpretações sem
uma investigação mais aprofundada. As dinâmicas entre
causa, ato e conseqüência, são bastante complexas e
por isso a investigação é imprescindível antes de qualquer
resposta ou atitude.
Quando
temos uma queixa. Por exemplo: “fui despedido e estou
mal”, esta é a queixa trazida e aparentemente o que
lhe incomoda. Diante desta afirmação poderia se perguntar:
Por que fostes despedido? “Porque briguei com
meu chefe”, ele responderia. Esta poderia ser então
a causa, ou mesmo outras perguntas poderiam ser feitas
para investigar mais a fundo a briga com o chefe e o
que ocasionou, podendo surgir outras causas. Outra pergunta
que poderia ser feita é: o que aconteceu ou acontecerá
agora? “Não gosto de ficar sem trabalhar, fico angustiado
e deprimido”. Esta seria a conseqüência. Outra pergunta
ainda poderia ser feita: diante disso, o que mais lhe
incomoda: ter brigado com o chefe, ter perdido o emprego
ou ficar sem trabalhar e deprimido?” É importante que
não se julgue, mesmo que a resposta pareça óbvia, é
preciso que a resposta venha do próprio “queixante”,
para que o diagnóstico seja mais preciso.
Às
vezes para uma conseqüência, teremos sempre a mesma
causa. Por exemplo, a lei da gravidade como causa da
caída de objetos que são lançados para o alto, este
sendo o ato em si. O ato modifica, pode-se tanto jogar
uma bola ou uma pedra, ambas conseqüentemente cairão.
Outras vezes, para uma conseqüência podemos ter diversas
causas, ou diferentes conseqüências para a mesma causa.
Uma traição pode resultar em diferentes desfechos: fim
o relacionamento, um entendimento, a compreensão do
traído, uma briga, sentimento de ódio, raiva, ressentimento,
mágoa e outros. Causa, ato e conseqüência, também podem
tornarem-se um ciclo, e um ir gerando a outra, como
evaporação, nuvem e chuva, uma vai provocando a outra
até que o padrão seja quebrado.
A
Teia da Mágoa
A
mágoa se apresenta como um desgosto, um descontentamento,
que pode ser por alguém ou pela própria vida. Uma amargura
que no sentido da palavra, nos deixa um gosto amargo
pelas relações passadas, uma grande paixão que se tornou
reduto de ódio e por conseqüência, o corrosivo sentimento
de mágoa. A mágoa nos deixa demasiados pesados para
nos movimentar e demasiados lentos para pensarmos com
lucidez, prudência e coerência. A mágoa nos enleia em
suas teias como uma traiçoeira aranha, nos abocanhando
repentina e plácida. Lentamente ela nos devora, jogando
seu néctar que nos corrói por dentro e nos trazendo
dor e sofrimento.
Buscamos
respostas e soluções para a mágoa e suas diferentes
implicações, assim como a absolvição, para que a mágoa
seja entendida. Claro é, que esta é uma discussão complexa,
ampla e difícil. Um tema que evidentemente não será
esgotado, pois a mágoa é como um rio que escore como
o sangue em nossas veias, impregnada como um sentimento
corrente no ser humano. A mágoa é uma forma de pensar
e sentir, que causa muita dor e sofrimento. Muito mais
em quem a sente, do que em seu alvo. Estar magoado é
como tomar uma dose de veneno, esperando que o outro
morra. Um desgosto que normalmente vem e toma o lugar
de um sentimento virtuoso: o amor. Alguém que pelo lugar
em que ocupa deveria ser amado, de repente, por atos
talvez impensados, ou que seja premeditados, escolhidos,
ou imprevisíveis, é julgado às vezes sem muita lucidez
tornando-se então, reduto de mágoas. Neste caso, o mais
importante não foi a intenção do outro, mas a própria
reação. O outro acaba por se tornar um ser humano deplorável,
imprudente e desumano. Uma amargura que contagia sentimentos
e acaba deixando o gosto amargo no dia a dia, az vezes
chegando a perder a graça ou o próprio sentido da vida.
Perdem-se uns dos outros e não querem mais se encontrar,
preferindo a solidão em detrimento do perdão e da companhia.
Chegando em muitos casos a arrastar essa mágoa por toda
a vida.
“Meu
pai era alcoólatra e quando eu era criança me batia,
depois que cresci saí de casa e nunca mais voltei, não
perdôo meu pai, se quer o reconheço como tal”. Um depoimento
como este pode guardar muita mágoa. A dor talvez não
consiste no fato de não ter tido um pai “normal”, que
dê carinho, afeto e amor a seu filho. Mas sim, na incapacidade
de perdoar e a intolerância cunhada e julgada num comportamento
paternal não muito sadio. De forma alguma neste texto
cabe a generalização. Mas é importante saber que as
pessoas dentro das suas possibilidades, procuram fazem
o melhor que podem. Se não fazem ou fizeram diferente,
é porque talvez não sabiam. Quem sabe este tenha sido
o modelo de educação que tiveram, foi a forma que aprenderam
a viver e educar, por isso, repassam achando ser a melhor
ou mesmo a única forma de viver a vida e ensinar alguém
a vivê-la. Não estamos defendendo pais agressivos ou
alcoólatras, mas sim, tentar entender o porque de agirem
de tal maneira, ou seja, as causas.
Talvez
alguém chegue falando, “meu pai é violento com minha
mãe, espancou a mim e minha irmã até a adolescência.
Hoje minha irmã está casada com um homem que a violenta,
é agressivo com ela. Eu estou namorando um cara que
usa drogas e é violento também”. Bem ou mal, bom ou
ruim, nossos primeiros e principais modelos de homem
e mulher são nossos pais. Se tivermos poucos contatos
sociais, o que aprendermos em casa, isso se torna “normal”,
e é desta forma que viveremos, acharemos que realmente
é assim que funciona. Neste caso, os homens realmente
são violentos, todos são assim e sou atraída por eles,
poderia pensar. Todavia, um belo dia descobre-se que
os homens podem ser diferentes. Como ficam os sentimentos
pelos pais destes indivíduos? Esta é uma das formas
da mágoa nascer trazendo conseqüentemente suas implicações.
Complexidade
Humana
Ao
falarmos de ser humano, é impossível usar scripts, impossível
ter “pacotes” pré-preparados. O mais certo é o incerto.
A “armadura” que serve para um, dificilmente servirá
para outro. Por isso, descartemos interpretações que
tentam enquadrar o homem em moldes padronizados, e por
isso, pouco lúcidas e aceitáveis. É necessário investigar
as causas que regem os problemas e especialmente os
problemas daquele indivíduo em particular. Fazendo por
ele mesmo chegar à conclusão necessária, sem colocar
palavras em sua boca, pensamento em sua mente ou sentimentos
em seu corpo. Quando se conhecem as causas primeiras
ou princípios pelos quais este indivíduo vive, fica
mais claro seu entendimento, possibilitando decisões
mais acertadas para aquele problema em si.
A
questão que mais intriga e causa controvérsias, é depois
de conhecidas as causas, como isso pode ou deve ser
trabalhado para se chegar a uma resolução mais rápida,
concreta e definitiva. Se pegarmos vários pensadores,
veremos que cada um trilhará um caminho próprio. Depende
de como cada um entende o ser humano, qual é seu método.
Alguns irão ao passado onde tudo começou e de posse
dessas informações trabalharão, outros buscarão explicações
nas inter-relações do indivíduo. Aqueles que acreditam
no inconsciente, talvez joguem a responsabilidade para
ele. Outras ainda trabalharão no presente com orientação
para o futuro, buscando a solução ou mudança. Diferentes
são as formas, todas têm suas qualidades, imperfeições
e limitações. Umas serão mais rápidas, outras mais lentas.
Cada uma possui seus méritos. Talvez a mais assertiva
será aquela que conseguir no menor espaço de tempo utilizar
a realidade individual do paciente, causando o mínimo
de dor e indiferença e o máximo de prazer na solução
do problema.
Absolvição
da Mágoa
Para
que se possa eliminar a mágoa, é necessário absolver.
E para absolver é necessário que se conheçam as causas
pelas quais o outro fez o que fez. Na medida em que
você entende e coloca-se no lugar do “acusado”, poderá
tomar sua decisão, declarando-o inocente se inocente
for. Perceber que talvez o outro seja inocente por ter
agido com ignorância, ou simplesmente por ter feito
o melhor que poderia, pois não tinha escolhas. Entretanto,
você pode descobrir que o outro agiu de má fé. Tudo
foi premeditado, ele tinha escolhas, ele poderia ter
feito diferente, mas não o fez, neste caso, é mais complicada
a absolvição. Porém, não aceitar o erro do outro, não
significa que não possa perdoa-lo, você pode sim absolve-lo
mesmo sabendo que o outro agiu de má fé. É possível
buscar um entendimento para que isso não se repita mais.
Se for alguém que não faz mais parte do seu convívio
ou mesmo que já tenha falecido, podes perdoar sem uma
comunicação direta, mas sim apenas consigo mesmo, neste
caso, o seu perdão é o elixir da sua cura.
Somente
pode ser absolvido quem de alguma forma cometeu um erro
ou é culpado. Mas isso aos olhos de quem? Neste caso,
do acusador em especial. O que é natural ou certo para
alguns, pode não ser para outros. Assim, se você acha
que alguém errou e depois descobre as causas que levaram
a fazer tal ato e que talvez no lugar dele faria o mesmo,
como fica? Na verdade, você não precisaria mais absolvê-lo,
haja visto, ele não ter cometido nenhum “crime”. Ai
pode nascer uma implicação da absolvição, que é a caça
virar-se contra o caçador, e agora quem deve ser absolvido
é o acusador, por ter sido precipitado em seus julgamentos,
por não ter se utilizado da prudência.
Temos
então o outro lado da absolvição, para que o absolvidor
não sinta culpa em inocentar o suposto acusado quando
este não tem culpa, é necessário fazer uma analise de
si mesmo e perceber o que o levou a fazer tal ato, para
que o círculo não continue e você sinta-se culpado por
agir precipitadamente, continuando a sofrer. Da mesma
forma que o outro, você também fez o melhor que pode
dentro do que sabia e de suas possibilidades. Se não
percebeu alguns detalhes e informações importantes durante
o processo de acusação, talvez tenha sido porque nunca
antes alguém lhe falou, que isso era necessário ser
feito. Nunca antes você aprendeu que diferentes detalhes
devem ser levados em consideração, antes de tomar decisões.
É
importante ir além dos atos e conseqüências. É necessário
perceber as causas. Em que momentos tais atitudes foram
tomadas e porque foram tomadas. Que ambiente serviu
de cenário. Que outras pessoas influenciaram em tais
decisões. Que tipo de educação esta pessoa teve. Quais
foram as possíveis motivações e crenças que levaram
a tais atos. Quais eram as possibilidades de escolhas
naquele momento e se tinha mais que uma. Que ferramentas
possuía. Quais eram as limitações desta pessoa. Deve-se
diminuir ao máximo o risco de erro, e de arrependimento
futuro, que neste caso é protelar a mágoa, para que
depois venha com ainda mais força.
Se
faz necessário um raciocínio encima de evidências, para
que não se corra o risco de perpetuar o erro do outro,
com seu próprio aval e absolvição. Porém, isso também
abre brechas para discussão. Por exemplo, um pai com
seus setenta anos de idade. Durante toda a sua vida
ele acreditou que o lugar da mulher era na cozinha,
e apenas o homem deveria sair para trabalhar. Educou
a filha segundo este princípio, ser dona de casa. Entretanto,
esta nunca concordou com tal idéia, quando discordava
era reprimida e foi tolhida em sua liberdade, tendo
que agir dentro deste princípio. Chega um momento em
que a filha sai de casa achando que deveria ter feito
isso há muito tempo. Acabou por criar uma seria aversão
ao seu pai e uma possível mágoa.
Ao
fazer uma terapia, ler um livro ou de qualquer outra
forma avaliou o seu passado para entender as ações do
pai. Talvez perceba que ele tinha suas razões para agir
de tal forma. Poderá inocentá-lo, mas isso não fará
com que ele mude de idéia e nem por isso precisa obrigá-lo
a mudar. São setenta anos pensando desta forma, e nesta
idade, grandes mudanças podem trazer conseqüências como
a perda do sentido da vida, ou mesmo a sensação de ter
vivido de forma errada. Por isso, tudo é muito relativo
e deve-se usar do bom senso. Deve ser muito bem avaliado,
levando-se em consideração os diversos fatores que permeiam
a relação. Os fatores que sustentarão a mágoa. Os fatores
que regem o suposto causador da mágoa, e em que ambiente
e cultura tudo isso acontece.
O
maior objetivo é que sigamos um caminho que nos liberte
deste sentimento que nos faz mal. A absolvição do outro
será a nossa liberdade. A partir daí temos a possibilidade
de recuperar o prazer em conviver com as diferentes
pessoas. Nos sentindo mais leves em nossos pensamentos
e sentimentos e no julgamento do outro que começa a
ter novos critérios de interpretações, de tal forma
que não nos enleie mais na teia da mágoa e nos cause
sofrimento. A vida clama para se bem saboreada.
Prevenção
da Mágoa
Poderíamos
dizer que a mágoa é uma forma de suicídio. Viver amargurado,
nostálgico pelo o que foi e não é mais. Pelo o que foi
e deixou feridas profundas. Um suicídio postergado que
vai matando aos poucos, nos envolve de tal forma que
não conseguimos mais raciocinar de forma clara a respeito
que quem nos magoou, além de gerar medo ou receio de
ter novas experiências e relação. Impede um bem viver.
Impede o sorriso abundante, que poderia trazer o gosto
bom de viver. Impede a confiança no outro.
A
mágoa é um sentimento aparentemente insignificante,
porém deixa marcas gigantescas em nossa dinâmica interna.
Não é uma doença, é apenas um sentimento gerado por
formas específicas de pensar. Raciocinar de tal forma
que o leve a crer, que aquilo que o outro fez está errado,
que não deveria ter feito, que deveria ser mais sensível,
pensar mais, que deveria saber o que estava fazendo,
que deveria... Todavia, não foi o que aconteceu. O outro
tomou atitudes que lhe mostraram uma realidade que desconhecia,
inesperada. E o que fazer quando a realidade nua e crua,
se apresenta em nossa porta e bate até que abramos?
Não bata a porta em sua cara, receba-a como um amigo
para uma conversa. Devemos extrair o máximo de proveito,
o máximo de aprendizagens e pensares lúcidos, devemos
nos tornar amigos, assim será mais fácil para lidar
com a realidade.
Aceitar
esse real não significa deixar-se ser dominado. Que
o seu sentimento de raiva ou ódio tornem-se num rançoso
sentimento de mágoa. Não. O outro apenas lhe mostrou
uma realidade. Por sua vez agora, deve analisar o que
está sendo mostrado e tirar suas próprias conclusões.
Depois se faz necessário que mostres a sua escolha,
frente ao que foi apresentado. Não se trata aqui de
vingança, mas sim de limites. O outro vai até onde permitimos
que vá. O outro entra em nossa vida pelas portas que
abrimos, o outro faz conosco aquilo que permitimos que
faça. Podes escolher trancar algumas portas, porque
não! Podes distanciar-se, podes continuar com reservas.
Podes voltar a confiar. Cada um pode fazer a própria
escolha consciente, analisando as circunstâncias sem
precisar alimentar em si, a mágoa.
Na
medida em que nos relacionamos com as pessoas, vamos
apreendendo e identificando o terreno de cada um. Percebendo
onde podemos pisar ou não. Não é interessante magoar
nem ser magoado. No momento em que existe um conhecimento
mútuo, é importante que se crie um respeito mútuo, pautado
no conhecimento que cada um tem do outro. Se houverem
deslizes, deve-se fazer os questionamentos necessários
à elucidação do fato. Deve-se se perguntar o que pode
ser relevado, absolvido ou mesmo condenado.
Já
que a mágoa é um sentimento gerado por uma forma específica
de pensar em relação ao outro, para que ela não se forme,
precisamos pensar diferente do modelo padrão causador
da mágoa. Pensarmos de tal forma que possamos ter lucidez
e entendimento com relação aos fatos. Assim, evitamos
esse corrosivo sentimento, nos sentiremos mais leves,
acabaremos por compreender mais o outro e a nós mesmos.
Referências
Bibliográficas
LÓPEZ,
E. M. Os quatro gigantes da alma. Rio de Janeiro, José
Olympio Editora, 1998.ARISTÓTELES, Retórica das paixões.
São Paulo, Martins Fontes, 2000.
VAUVENARGUES, Das leis do espírito – Florilégio filosófico.
São Paulo, Martins Fontes, 1998.
Artigo
publicado na Revista Psicologia Brasil
Nº 16 - Dezembro de 2004.
*Odair
José Comin, Psicólogo, Hipnoterapeuta e Escritor
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