Riso
Solidário
Por
Odair José Comin e
Viviane Scarpelo Comin
O
corpo balança de um lado para o outro, há contrações
no tórax, a cabeça mexe, o maxilar trepida para cima
e para baixo. A boca se abre com os cantos puxados para
cima, o lábio superior se eleva. O corpo fica ereto,
a cabeça se levanta, os olhos se abrem mais e ficam
brilhantes, as sobrancelhas, pálpebras, narinas, cantos
da boca, o rosto se expandem. O cérebro, estimulado
pela elevação da circulação sanguínea, tem uma potencialização,
um aumento das capacidades neurais, um exército de boas
sensações é enviado para o corpo. Eis a descrição e
o impacto de um riso verdadeiro. E é fácil imaginarmos
uma criança alegre. Porém, quanto tratamos do assunto
hospitalização, esses sintomas da alegria parecem se
distanciarem, e tudo que antes era colorido se transforma
em cinza. O adoecimento e a hospitalização infantil,
geram muitos pensamentos e sentimentos que antes não
faziam parte integrante da vida da criança. Algumas
ficam agitadas, outras depressivas e apáticas, todas
demonstrando que há um sentimento de tristeza. Medo,
ansiedade e angústia tornam-se freqüentes, e as crianças
sentem-se desprotegidas, podendo haver sentimentos de
aniquilamento e/ou punição. Além disso, a situação de
internação as expõe a um regime terapêutico que gera
estado estressante, tanto em nível físico como psicológico.
Os hábitos anteriores da criança terão que se transformar
frente à realidade da hospitalização e da doença. As
atividades lúdicas e de aprendizagens se tornam passado,
e muitas não conseguem imagina-las no futuro. Esse mal-estar
se propaga aos familiares, que vendo suas crianças tristes,
também sentem-se tristes e impotentes. O hospital passa
a ser um local ameaçador e agressivo.
Tratando
do assunto ser humano e saúde, nos referimos tanto à
parte física quanto à psicológica. Um ambiente hospitalar
frio, dissociado, faz com que a relação com o humano
fique debilitada. É neste sentido que podemos falar
da importância de profissionais aptos a lidar com aspectos
psicológicos dentro dos hospitais, proporcionando pensamentos
e sentimentos capazes de gerar saúde física e emocional.
Do medo, angústia e desconforto, a alegria, ao sorrido
e ao prazer de viver.
A
alegria é uma sensação agradável, um sentimento que
nos envolve e vem para mostrar que algo de bom esta
em curso, algo de bom esta acontecendo. A alegria é
um desfrutar, é extrair da vida o melhor que ela pode
nos oferecer. Muitas vezes nos sentimos como se
estivéssemos num pântano, nos sentimos tristes, nos
sentimos mal, doentes. Parece que tudo está ruim, que
nada mais nos resta. De repente, alguém chega e nos
presenteia com uma flor, com um sorriso, com algo colorido,
com uma travessura. O riso transforma nosso mundo, transforma
o pântano em jardim, e a tristeza em alegria. Isso é
vida, isso é força transformadora. A alegria desencadeia
o riso, o riso nos põe leves, nos põe relaxados, tranqüilos.
O riso nos faz perceber que estamos de bom humor. E
como diz Sponville, o humor é uma virtude, uma virtude
leve, uma virtude engraçada, uma preciosa qualidade.
Nas
crianças, o riso é mais abundante, mais fácil. A alegria
tem um efeito ainda mais intenso. Existe a surpresa,
o mundo em muitos aspectos ainda é novidade. O riso
é espontâneo, e para eles faz muito bem, por isso gostam
de palhaços, de coisas engraçadas. O diferente, o engraçado
lhes tira do foco da doença, da tristeza, e as fazem
mergulhar num mundo encantado, num mundo colorido. Toda
a sua atenção volta-se para aquele que os faz rir; trapalhadas
e travessuras que parecem anestesiar seus corpos,
contagia de tal forma, que parece que o mundo se resume
a isso: um doutor palhaço, um doutor da alegria que
traz felicidade. Que os resgata de seus estados de humor
deprimido anteriores e os possibilita um novo estado:
de melhora, de alegria, de cura. Todo o corpo parece
bater palmas pelo novo vislumbre, por um coração que
começa a bater em um novo ritmo. Coisas engraçadas parecem
fazer cócegas em nossa mente, tal qual a cócega que
sentimos no corpo, e isso nos faz sorrir.
O
riso é como uma indicação de que tudo vai bem, sendo
assim, o cérebro entende que está tudo bem com o organismo
e por isso o trata como um corpo saudável. Quando tratamos
alguém como inteligente, ele pode realmente ser ou com
este incentivo se tornará. Quando acreditamos que somos
capazes, nossa mente conspira a nosso favor, para que
tudo possa ocorrer como desejamos. Vemos muitos casos
de pessoas com câncer e que “de repente” como que por
“milagre”, aparecem curadas. A vontade de viver torna-se
mais forte que o ímpeto da morte. A alegria, o riso,
por certo tornaram-se mais abundantes. Talvez não haja
medicamento mais potente do que provocar belas gargalhadas,
nosso corpo agradece e ainda mais, nos dá prazer, o
prazer de viver.
Texto
publicado na Revista Materlife em agosto de 2005.
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