Ivanilde
Sitta - Vejamos
o seguinte: Nível glicemico elevado resulta em diabetes.
Nível glicemio baixo, hipoglicemia. Assim como nosso
organismo necessita de um equilíbrio das substâncias
para ser saudável, nossa saúde mental também exige
um equilíbrio das emoções, certo? Dentro dessa linha
de raciocínio gostaria de abordar os prós e os contras
de nossas emoções, mostrando que a receita do sucesso
está no equilíbrio. Portanto, daria para o Sr. abordar sobre
o lado positivo e negativo da raiva, da ansiedade, do
sentimento de culpa, do ciúmes, do otimismo, da tristeza
e do medo? Seria mais ou menos nessa linha: o sentimento
de culpa, por exemplo, apesar de danoso em excesso,
é fundamental para não sairmos por aí atirando em todo
mundo. Da mesma forma o medo. Em demasia, emperra a
vida de qualquer um. Mas se não tivermos medo, nos arriscaríamos
em tudo, sem medir as conseqüências?
Odair
J. Comin - Não há dúvida que deve haver uma
congruência e um equilíbrio entre nossas emoções. Não
têm como abolirmos nossas emoções ou paixões, elas fazem
parte do ser humano e nos beneficiam muito. O medo,
por exemplo, em muitas situações pode ser saudável,
sendo um dos responsáveis pela preservação de nossa
espécie, nos protegendo de muitas situações perigosas.
Ao mesmo tempo, o medo pode virar fobia, ou um medo
irracional, o que nos paralisa e nos impede o movimento.
As
emoções são uma força, algo que nos põe em movimento,
e será a razão que determinará para que fim será usada
tal força; para o bem ou para o mal, positiva ou negativamente.
O ser humano é racional, portanto, pode utilizar-se
de seu raciocínio e bom senso nas diferentes situações
em que as emoções se manifestaram, e podem assim fazer
a melhor escolha. Só a razão nos dá escolha, ao passo
que a paixão nos domina e nos leva a bel prazer se a
razão não interferir.
Tanto
as perguntas, quantos as respostas estão dentro de nós,
da mesma forma a saúde e a doença, a dor e o prazer,
o remédio e o veneno, o medo e a coragem. Tudo o que
é criado dentro de nós pode ser destruído por nós mesmos;
possuímos os recursos necessários, podemos produzir
os vícios e também as virtudes, se podemos desviar do
reto caminho, podemos caminhar no mais certo, portanto
o equilíbrio é possível e para isso basta olharmos dentro
de nós mesmos. A ansiedade faz parte do ser humano,
pois não sabemos como exatamente será o futuro. Em certos
níveis a ansiedade é normal. Apenas quando seu grau
é elevado trazendo sofrimento ao indivíduo, aí sim se
torna um problema e precisa de solução.
O
ciúme traduz em insegurança, em medo. Insegurança seus
reais valores, sua confiança em si mesma, sua capacidade
de ser boa o suficiente, de achar-se proprietário do
outro, um amor que aprisiona. Muitas vezes possui auto
estima baixa, e tudo isso gera medo, medo de perder
o ser amado. O ciúme gera sofrimento e isso não é bom,
nem para o que sente, nem para o outro, pois se sente
cercado e amputado em sua liberdade ou mesmo, não percebendo
no outro um porto seguro. Esse sentimento pode ser trabalhado
dentro do indivíduo para que tenha segurança em relação
ao que sente, e possa modificar essa emoção. É possível
demonstrar preocupação com o bem estar do outro, entretanto
em níveis que não lhe tragam desprazer.
No
caso de sentimento de culpa, este vem muito mais da
herança católica sobre pecado. O sentimento de culpa
em si não é bom, pois se há esse sentimento é porque
o erro já foi cometido. Deve-se então, evita-lo com
a prática de virtudes, e ser ético em nossas ações;
a ação ética visa o bem de si e do outro e quando agimos
assim, não temos porque nos sentirmos culpados. Ao mesmo
tempo, numa sociedade que prima pela punição e não pela
educação, sim o sentimento de culpa é um paliativo.
Numa sociedade que aliena, que domina pelo medo, que
impõe condições subumanas, pobreza e violência gratuita,
sim o sentimento de culpa é um paliativo.
IS
- Por que o equilíbrio das emoções é fundamental e como
chegar a isso?
OJC
- O equilíbrio é necessário pelo fato de que os
extremos, tanto por falta, quanto por excesso nos fazem
mal. Tanto a covardia quanto o medo demasiado são vícios,
a virtude está na coragem, em uma coragem equilibrada.
Os excessos podem nos trazer dor, nos geram sofrimento.
O equilíbrio das emoções é alcançada pela razão, e é
isso que nos diferencia dos demais seres.
Somos
racionais e por isso não precisamos agir apenas por
instinto, apenas por paixão. Podemos ponderar, analisar,
ver sob diferentes ângulos, perspectivas. Poder raciocinar
sobre as circunstâncias onde nos encontramos, qual é
o ambiente. A razão nos dá alternativas, nos dá escolha,
e quando podemos escolher, nos sentimos livres, nos
sentimos à vontade e podemos sempre fazer a melhor opção,
e é isso o que nos traz o equilíbrio.
IS
- Por que é tão difícil alcançar esse padrão de equilíbrio?
OJC
- Fazer a coisa certa é difícil, fácil é fazer a
coisa errada. Só há um jeito de acertar o alvo, todo
o resto é acertar fora dele, por isso é difícil acertar.
A virtude, que para Aristóteles só se consegue com equilíbrio,
requer esforço, requer ação, movimento, requer prática.
É por isso que as pessoas acabam por não ter o equilíbrio
tão almejado, por não se esforçarem, por não porem em
prática muitas das coisas que conhecem, por medo ou
acomodação não as vivenciam. Só se é corajoso, praticando
atos corajosos; só se faz justiça, praticando atos justos;
só se conquista o equilíbrio trilhando o caminho do
meio, praticando e educando suas próprias emoções por
meio da vivência e da razão.
IS
- Hoje está mais do que provado que sentimentos negativos
abalam nossa saúde física, enquanto os sentimentos positivos
são um verdadeiro elixir da saúde. Daria para o Sr.
dar alguns exemplos da relação de algumas doenças com
certos sentimentos e emoções? Por exemplo, casos de
câncer ligados a pessoas que tem alto grau de ressentimentos.
O inverso também seria interessante abordar, como pessoas
otimistas, geralmente tem um sistema imunológico mais
potente e, portanto, menos sujeitas a certos distúrbios.
OJC
- Cada indivíduo é um ser único com interações internas
singulares. A forma como cada um pensa sobre si mesmo
terá um impacto, tanto como positiva como negativamente.
A somatização ou mesmo a dor, é um aviso de que a forma
que o indivíduo está levando sua vida ou a maneira que
pensa ela, não está sendo muito interessante para sua
condição de ser humano. Aquele que pensa bem, geralmente
age e vive bem, e isso de forma geral e como um todo,
tanto numa alimentação saudável, quanto na diversão,
no trabalho, no descanso. O contrário também pode ser
verdadeiro, pensar, agir e viver mal, por certo trarão
impactos negativos. Estes podem ser doenças, mal estar
ou algum tipo de sofrimento.
Não
há uma causa específica para uma causa específica, por
exemplo, nervosismo é igual a gastrite nervosa; raiva
é igual a câncer; sobrecarga é igual a síndrome do pânico.
Tudo é muito relativo e deve se observar o indivíduo
como um todo. Todavia, fica bastante claro que aquele
que busca e pratica o bem viver esteja mais próximo
dele, do que o outro que por diferentes motivos perde
o gosto pela vida ou vive nos extremos, ou nos excessos
ou nas faltas. Emoções o tempo todo no extremo, se tornam
armas ou vírus destruidores para quem a sente.
Entrevista
integral sobre Emoções humanas, concedida à Revista
Coop
*Odair
José Comin, Psicólogo, Hipnoterapeuta e Escritor
Copyright ©
Delphos Instituto de Psicologia e Hipnose