Por
Mário Quilici
Aqui
falaremos de Psicologia Contemporânea, onde será abordada
aquela que foi, em parceria com Freud, a mãe da psicanálise:
a hipnose. Nas “Obras Completas”, o volume 1, nos deparamos
com a experiência de Freud no campo da hipnose. Nesse
primeiro volume onde trata-se da trajetória do pai da
psicanálise, encontramos diversos artigos sobre o período
em que Freud estudou e praticou a hipnose. Freud vai
abandonar a hipnose já no tratamento de Isabel de R.
Passa a utilizar com essa paciente, o método da coerção
associativa. Descobre a dissociação da consciência.
Cria então a teoria do trauma sendo que este, estaria
na origem da dissociação da consciência. Freud então
abandona a hipnose e utiliza-se da coerção associativa
para chegar ao trauma. Isso confirma a Freud que as
coisas doloridas são esquecidas por necessidade de evitar
o que é desagradável. Logo Freud descobre a resistência,
pedra fundamental da psicanálise. Deixa de lado então
a coerção associativa por que, conclui ele, sempre haverá
de tropeçar na resistência. Surge a técnica da associação
livre e, daí para a frente nasce a psicanálise.
Por
muitas anos essa conclusão freudiana deixou a hipnose
relegada a um plano sem importância. Creio que por um
lado a conclusão de Freud havia esgotado o assunto e
não havia mais nada a ser dito e por outro, no Brasil
a hipnose sempre esteve mais relacionada à circos e
palcos e não à ciência. Observo que, ainda hoje, quando
se fala em hipnose, temos duas reações a saber: alguns
profissionais torcem o nariz com desconfiança e descrédito
ou então trata-se da hipnose com certo misticismo.
Seria
tolo criticar as pessoas que olham a hipnose com desconfiança.
No Brasil o tema, como se disse anteriormente é tratado
em palcos televisivos e de forma sensacionalista. Os
hipnotizadores, na maioria das vezes, são pessoas que
nem tem autorização legal para fazê-lo e violentam em
público, algumas pessoas menos avisadas ou até mesmo
contratadas. Os cursos sobre hipnose são de curta duração,
incompletos e vendem uma imagem exagerada e mentirosa
da hipnose como uma panacéia para todos os males. Não
é. É uma ferramenta importante sim, mas com as limitações
normais de qualquer técnica. Além disso, tais cursos
que deveriam ser dirigidos por médicos e psicólogos,
as pessoas legalmente habilitadas para realizar um trabalho
desses, são ministrados por pessoas com outras formações
a um público sem qualquer conhecimento fundamental.
Nos
E.U.A. a hipnose é utilizada como um recurso terapêutico
eficiente. Existem muitas Teses de Mestrado e Doutorado
sobre trabalhos com hipnose demonstrando que é um recurso
terapêutico muito eficiente. A hipnose é utilizada em
tratamentos médicos como por exemplo em anestesiologia.
Muitos anestesiologistas estão desenvolvendo estudos
com hipnoses para diminuir a quantidade de anestesia
química utilizada durante as cirurgias. Na área de odontologia
a hipnose vem sendo utilizada pelos americanos ( e brasileiros)
para ajudar os pacientes a reduzirem a ansiedade e o
pânico. Também para analgesia e anestesia já que muitas
pessoas são alérgicas à drogas utilizadas pelos profissionais
de odontologia. Uma outra utilidade recentemente descrita
em odontologia, mostra que uma boa técnica hipnótica
pode reduzir o fluxo de sangue para a área em tratamento
o que resulta numa experiência menos traumática para
o paciente e mais limpeza para o dentista. Nas áreas
policiais e forenses, utiliza-se também a hipnose pelos
policiais de algumas cidades americanas para ajudar
a diminuir o trauma de pessoas vitimadas por criminosos.
Utiliza-se ainda a hipnose para ajudar testemunhas e
vítimas a recordarem-se de detalhes que lhe escapam
por terem sido por demais traumatizadas e estão, por
isso, impedidas de darem depoimentos. No campo educacional
a hipnose também é utilizada com ampla gama de possibilidades.
Um exemplo é a diminuição da ansiedade a o aumento da
concentração. Hoje, muitos professores ensinam seus
alunos a utilizar alguns recursos de auto hipnose para
aprenderem a gerenciar a ansiedade durante as provas
e aumentar suas habilidades de observação e organização
de objetivos. A hipnose também é utilizada hoje em empresas
e na área esportiva com objetivos semelhantes àqueles
utilizados na educação com resultados significativos.
Como
se pode ver, a hipnose, na maioria dos casos, dirige-se
à processos ligados à mente. Por que então excluir a
hipnose da psicoterapia? A hipnose é uma ferramenta
eficiente para o tratamento de alguns problemas comportamentais
e emocionais. Por isso já é parte do currículo de muitas
universidades americanas. Mas vale esclarecer uma coisa:
Hipnose é uma ferramenta e não um processo de terapia.
Por isso pode trabalhar adequadamente com qualquer abordagem
teórica. Uma das vantagens de usar a hipnose na psicoterapia
reside na sua habilidade de utilizar-se dos extraordinários
recursos da mente inconsciente. Todos sabemos que a
mente inconsciente contém os registros de todas as nossas
experiências e aprendizados de vida. A hipnose permite
um acesso maior aos recursos e recordações inconscientes.
Além disso, com o transe hipnótico que sempre proporciona
um relaxamento profundo, pode-se interromper com segurança
os processos de stress, pânico e ansiedade.
Com
os tempos modernos, onde cada vez mais as pessoas estão
procurando terapias breves ou aqueles terapias que tratam
apenas do sintoma, a sugestão pode ser uma forma de
ajuda ao paciente. Mas não é o único uso da hipnose.
É um recurso interessante para ajudar alguns pacientes
a recordarem-se de situações traumáticas de suas vidas.
Muitas experiências mostram que alguns pacientes que
só conseguiam falar de maneira insípida sobre determinadas
situações de suas vidas, situações essas que intuímos
traumáticas, mas por carecerem de colorido afetivo,
parecem inconsistentes, conseguem numa regressão hipnótica,
recordá-las com todo os matizes afetivos do momento
em que ocorreram. Muitas vezes o que chamamos de trauma
cumulativo, pode ser recordado com fidelidade desconcertante.
A idéia de que o paciente esquece o que lembrou-se durante
a hipnose, raramente é verdadeira. Mas se isso ocorre,
pode-se sugerir ao paciente que lembre-se do que ocorreu
durante o transe. Na maior parte das vezes o paciente
lembra-se do que lhe ocorreu e pode, após encerrar o
processo hipnótico, elaborar seu drama pessoal.
Nota-se
que, especialmente nos processos fóbicos a hipnose tem
se revelado eficiente. Alguns pacientes recordam-se
de situações que desconheciam ou então tinham conhecimento
por que um dos pais ou outro parente haviam feito menção
mas, tal recordação, não fazia parte de seu repertório
de memória consciente. Entretanto, como se disse acima,
a hipnose, não é uma panacéia para todos os males e
por isso, tem indicações muito precisas no tratamento
psicoterápico. Quando se fala em indicações precisas
é necessário ter em mente que o profissional tem que
ter um domínio preciso do manejo psicoterapeutico para
determinar o que deseja obter com o processo hipnótico.
Além disso é necessário ter conhecimentos claros sobre
as técnicas de indução de transe bem como das técnicas
de exploração desses estados.
É
importante chamar a atenção para os cursos de hipnose
que se oferecem por ai.. Devem ainda obedecer um curriculum
rigoroso de onde constem: estudos consistentes sobre
a história da hipnose, conhecimentos claros sobre os
processos mentais ( Cs, Pcs, Ics), Conceituação, Estudos
sobre a sugestionabilidade humana, dinâmica dos processos
mentais, psicopatologia, fisiologia, ética e, após isso,
o inicio da prática com esclarecimentos precisos sobre
as técnicas de indução e utilização do transe como instrumento
terapêutico.
Fonte:
psipoint.com.br
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