A
aprovação da Hipnose pelo conselho Federal de Medicina
e a sua inclusão no currículo médico representam um
avanço considerável para o tratamento de diversos males
clínicos e psicológicos.
Texto:
Lis Carrilo
A
sessão foi marcada para às 14 horas, uma quarta-feira
de junho, num dia frio, comum em São Paulo nesta época
do ano. As escadas dão acesso à várias salas, entre
elas, uma cujas paredes estão pintadas num tom suave
de salmão. Poucos móveis, poltronas confortáveis, boa
iluminação. O ambiente carrega uma energia indefinida,
que talvez possa ser reduzida na palavra harmonia. O
paciente senta e sente-se confortável; a voz que escuta
tem um timbre muito doce e suave. Tão logo ele entra
em sintonia com este clima, cai num estado espontâneo
de relaxamento. O diálogo é contínuo, e os problemas
que o atormentam são detalhados, relatados e analisados
imediatamente. A voz que escuta apenas o conduz às suas
respostas.
Revivida em detalhes, essa cena pode ser semelhante
a um sonho – tem tudo a ver, pois a palavra grega Hipnose
é originária do deus do sono, Hypnos. Mas a situação
descrita, abstrata a principio, ilustra na verdade o
começo da soluação para problemas das mais variadas
causas. Ainda mais agora que a Hipnose foi aprovada
pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) e passa a fazer
parte do currículo médico. Para o presidente da Sociedade
Médica de São Paulo, doutor Joel Priori Maia, a Hipnose
ganhou mais credibilidade junto à população, agora,
“e poderá ser utilizada por diversos profissionais,
revolucionando a saúde pública”.
Segundo o psiquiatra, entre outros benefícios, a Hipnose
poderá ser usada no tratamento de problemas clínicos
ou psicológicos, processos que denomina de Hipniatria
(médico), Hipnoterapia (psicólogo) e Hipnodontia (dentistas).
A Hipniatria ajuda a combater desde dores no parto,
passando por problemas dermatológicos, até doenças psicossomáticas.
A Hipnoterapia elimina fobias e medos em geral, os vícios
do cigarro e do álcool, e a baixo estima; além de se
constituir num tratamento eficaz para crianças hiperativas.
Nos casos da Hipnodontia, estão relatados tratamento
de canal, sem o uso de anestesia e sem sangramento.
Estado de Transe
Através
dos tempos, existem inúmeras explicações e citações
sobre esse tema, entre elas, textos com mais de 4500
anos. Eles relatam como os sacerdotes da mesopotânia
usavam o transe para fazer diagnósticos, sempre com
o objetivo de sanar problemas e doenças. Ou seja, desde
o princípio, havia uma associação da Hipnose com a busca
constante pela cura. Mas o que vem a ser Hipnose? Um
estado de profundo e total relaxamento; estado mental
semelhante ao sono, provocado artificialmente, no qual
o indivíduo continua capaz de obedecer às sugestões
feitas pelo hipnotizador; um estado de sonolência, abrangendo
qualquer procedimento causado pela sugestão de um hipnoterapeuta.
Poderiam ser também as mudanças no estado físico e mental,
que produzem alterações perceptivas, comportamentais,
sentimentais, do pensamento e da memória. Um estado
de transe, que segundo o hipnoterapeuta Bayard V. Galvão,
não vem a ser aquele denominado por crenças religiosas.
“Não tem nada a ver com espírito. São as memórias do
indivíduo, o transe é um estado altamente focado de
atenção.” E acrescenta: “Só entra em transe quem focar
num ponto que lhe é agradável. O que não fizer parte
do seu foco não existe.” Esse transe poderá ser induzido
pelo próprio sujeito de forma consciênte ou não (um
devaneio), por algo exterior a ele ( num filme), ou
por ambos (como um contexto psicoterapêutico). E Galvão
esclarece: “O que acontece num transe é que as noções
do interno e externo do indivíduo podem perder uma referencia
em maior ou menor escala, vivendo-se a realidade apontada
pelo transe naquele momento.”
Num situação de transe, as palavras ganham um maior
impacto ao serem ditas. Uma das funções de um transe,
segundo Galvão, é vivenciar aquilo que é falado, pois
de uma certa maneira “todos já experimentaram uma forma
de Hipnose em alguns momentos da vida”. Um a criança
jogando videogame diante da TV não atende aos chamados
da voz da mãe para tomar banho ou comer; dirigir um
automóvel rumo ao trabalho, passando por placas ou ruas
sem tomar consciência, um filme, uma música. “Breves
momentos de inconsciência, e entregar-se, ficar absorto
no que estava fazendo, são indícios de que você já vivenciou
um hipnose”, explica o psicólogo.
Auto-Controle
Sem
contra-indicação, efeitos colateral, dependência ou
agressão ao paciente, a Hipnose é um tratamento definido
como um estado alterado de consciência, mas sem perder
a consciência. O paciente fica ciente de tudo o que
está acontecendo em cada momento, e ouvirá tudo o que
o hipnoterapeuta estiver dizendo. A vontade do paciente
não enfraquecerá ou mudará; de alguma forma estará,
tudo sob controle. E, caso o paciente deseje por qualquer
motivo sair do estado de transe, poderá fazê-lo abrindo
os olhos. Nada é feito contra a vontade do paciente,
pois ele é quem mantém seu próprio controle. Na verdade,
a fala não acontece por imposição do hipnoterapeuta.
O paciente começa a falar e a revelar informações por
livre e espontânea vontade.
Numa Segunda fase, acorre a rememoração, quando o paciente
entra em contato com fatos que possam ter causado traumas
ou que se estão refletindo em sua vida atual. A programação
destes fatos será a terceira fase, ligada, por sua vez,
à fase final, que se resume na reestruturação da mente.
Neste período, será trabalhada a mente para novos caminhos
de pensamentos, e para eliminar todas as culpas, traumas,
medos ou qualquer outro tipo de problema. “Um tratamento
elaborado pela Hipnose proporciona melhoras gradativas
e, às vezes, imediata, com custos e prazos menores que
os exigidos por outras técnicas terapêuticas”. Conclui
Galvão.
Fonte:
Revista Kalunga
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