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"Nenhum
técnico trabalha o lado psicológico como se deveria"
Regina Brandão
Por
Caio Piccolo
Psicóloga
há mais de vinte anos, a doutora Regina Brandão se especializou
em psicologia do esporte e trabalha com tenistas desde
1989. Fez cursos em Cuba e é o principal nome da área
no Brasil, tendo trabalhado também com outros esportes,
como vôlei, basquete e golfe.
Regina
trabalhou com Luiz Felipe Scolari na seleção brasileira
de futebol, além de coordenar o Centro de Pesquisas
da UniFmu e acompanhar tenistas juvenis. Nesta entrevista,
ela explica como usa a hipnose para melhorar o desempenho
dos tenistas, fala da importância da preparação psicológica
para os amadores e profissionais e aponta o que ajuda
e o que atrapalha os atletas.
Entrevista
com Regina Brandão
Quais
são as diferenças, em termos psicológicos, entre um
esporte individual e um coletivo?
Cada modalidade tem suas características psicológicas.
Nos esportes coletivos existem muitos atletas, cada
um com uma característica psicológica, isso torna o
trabalho mais difícil. No tênis, o atleta depende somente
dele, não pode acordar com o pé esquerdo e não pode
ser substituído se não estiver num bom dia. Existe umanecessidade
de um equilíbrio emocional muito grande para que o atleta
renda o melhor possível.
Todo
tenista precisa de um psicólogo?
A presença de um psicólogo em uma equipe infanto-juvenil
é fundamental porque são atletas em formação. Se o tenista
for trabalhado nessa fase, quando chegar ao profissional
já terá uma cabeça diferenciada. Nenhum técnico trabalha
o lado psicológico, pelo menos não como um psicólogo
poderia. Eles trabalham como se fosse uma coisa pessoal.
Como
um tenista descobre que está precisando de uma assessoria
psicológica?
Quando ele sente que não está rendendo tudo que pode.
Mas o trabalho não deve ser feito só na hora da dificuldade,
precisa ser uma preparação constante para prevenir problemas.
Qual
é o ponto principal a ser trabalhado pelo psicólogo
em um tenista?
A concentração e o autocontrole são muito importantes,
mas talvez um dos maiores problemas do tenista seja
como lidar com o erro. A jogada mais importante do tênis
é sempre a próxima, porque o tenista sempre lida com
aquilo que fez na jogada anterior. Isso requer uma resistência
de concentração muito intensa.
E
a cobrança dos pais de infanto-juvenis? Atrapalha ou
ajuda?
Os pais talvez sejam o maior stress do psicólogo. Eles
querem ajudar, mas muitas vezes prejudicam. Há um excesso
de interferência durante o jogo: instruções técnicas,
táticas. Tudo isso atrapalha muito mais do que ajuda.
O
que os técnicos devem fazer para evitar que jovens promissores
sofram com o excesso de treinos e torneios?
Sempre se atualizar, fazer cursos e conhecer muito bem
as técnicas de treinamento esportivo, pois muitos técnicos
só conhecem de "orelhada". Chamar um psicólogo
para acompanhar o jogador também é fundamental, e quanto
mais cedo isso acontecer melhor.
Qual
é a quantidade ideal de torneios para não saturar um
juvenil emocionalmente?
Um número exato não existe, mas acho uma estupidez fazer
um garoto de 14 anos jogar três jogos por dia como acontece
hoje em dia. A Federação Paulista e a Confederação deveriam
pensar muito nisso.
Quais
são as maiores necessidades em relação aos profissionais?
Quanto mais um atleta cresce no esporte, maior a pressão
da torcida e da imprensa, além de uma grande cobrança
pessoal. Imagine o seguinte: Guga já ganhou seis torneios
este ano, qual será a cobrança no ano que vem? Ele vai
ter que ganhar no mínimo 7. Imagine a pressão que ele
vai ter em cima disso! O profissional tem que trabalhar
muito esse ponto.
A
fama atrapalha ou pode motivar?
Depende de como o jogador trabalha com isso. Um exemplo
é aquele episódio de Roland Garros, quando Guga não
falou com a imprensa. Às vezes o tenista não consegue
lidar com a fama da melhor forma e talvez um psicólogo
possa ajudar nesse sentido.
O
técnico pode substituir o psicólogo?
O técnico é um grande parceiro do psicólogo e quanto
mais ele entender da parte psicológica, melhor. Alguns
treinadores assumem a função psicológica que não é deles,
mas não fazem como nós fazemos na psicologia do esporte
científica.
A
equipe da Copa Davis precisa de um psicólogo?
Não é só porque é uma Copa Davis que se deve fazer um
acompanhamento. O ideal é que cada atleta da equipe
faça um trabalho constante. Podia ter sido feito um
trabalho específico para o confronto com a Austrália
ou especialmente para o jogo contra Lleyton Hewitt.
Qual
é o seu método de trabalho?
Meu trabalho é direcionado por um perfil psicológico
do atleta, que é traçado na primeira consulta. Depois
faço uma reunião com os pais, com o treinador e com
o tenista, onde discutimos um relatório. É uma forma
de conscientizar o tenista da sua situação e apontar
aos pais e ao treinador o que estão fazendo de errado.
Como
aplicar essa metodologia a atletas que muitas vezes
nunca tiveram contato com um psicólogo?
Eu preciso usar a linguagem do atleta. Não adianta falar
"psicologês" e citar Freud para um jogador
de futebol que ele nem vai saber quem é. Falo a linguagem
do esporte.
Os
tenistas dão importância para a preparação psicológica?
Eles aprendem a dar importância. Tenho um cliente de
15 anos que já me indicou a três amigos! Ele percebeu
os resultados.
Quais
são as novas tendências na psicologia esportiva?
Hipnose no esporte. É um trabalho direcionado ao treinamento
mental através da mentalização e para isso é preciso
entrar num nível de relaxamento mais profundo. É aí
que entra a hipnose, mas não é aquela que o cara imita
porco ou come cebola pensando que é maçã.
Como
é feito esse trabalho?
Através de muitas técnicas de relaxamento e mentalização
o psicólogo leva mensagens para o inconsciente do atleta.
É impressionante a rapidez dos resultados! Só trabalho
desta forma com os tenistas infanto-juvenis e tenho
sido muita procurada.
Como
está a área da psicologia no esporte no Brasil?
O Brasil está engatinhando. Outros países tem muita
tradição, como a Rússia que há mais de cem anos tem
artigos publicados sobre o assunto.
Quais
são seus planos para o futuro?
Eu gosto muito da área de pesquisa científica e pretendo
continuar, a não ser que surja uma proposta excepcional.
Estamos desenvolvendo um Centro Preparação Mental para
Atletas. Esse projeto começa em setembro e a idéia é
dar assessoria para atletas, técnicos e comissões técnicas.
Vamos dar palestras, realizar eventos e cursos para
pais de tenistas e jornalistas sobre psicologia do esporte.
Pretendemos também formar um centro de capacitação de
profissionais para trabalharem na área.
Fonte:
Tênis Brasil
o
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